quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Paciente recupera a liberdade de “realizar tarefas sozinha”



Foto e texto: by Stela Murgel



Após cirurgias nas mãos, paciente tetraplégica ganha independência e volta a fazer movimentos que não realizava após acidente 

“...não  preciso que alguém faça por mim, preciso apenas de ajuda em alguns momentos”, diz Gabriela Rodrigues Cardoso, 22 anos. Com um sorriso que vai se formando timidamente ao longo da conversa, Gabi, como é chamada por todos, no auge da sua juventude conta sua trajetória até chegar ao Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP e passar com a especialista em mão, Renata Paulos – sua “libertadora” como diz a mãe, Erica Vanessa Cardoso.

Em setembro de 2014, Gabriela foi acompanhar a sogra numa perícia em Bragança. Na volta para Atibaia o carro em que estavam capotou. Assim como o veículo, a vida da jovem que sonhava em casar e fazer faculdade também “virou de cabeça para baixo”... Sua sogra morreu na hora, e Gabi ficou tetraplégica.

“Quando vou poder andar?”, esta foi a primeira coisa que perguntou para os médicos, mas não obteve resposta. A única coisa que disseram é que a recuperação seria de 6 meses a 1 ano. Foram 68 dias internada, 1 ano de reabilitação até ser encaminhada para a ortopedia do HC para uma avaliação e realização de uma cirurgia que daria força nas mãos.

Com medo de cirurgias, a jovem que procurava fazer tudo a sua maneira, só se decidiu a passar pelo procedimento alguns meses depois, e não se arrepende. Com lágrimas nos olhos, lembra quando estendeu o braço esquerdo após a cirurgia. “Não acreditava como os médicos conseguem fazer isso”, conta. “Foi a primeira vez que sorri, que sorri com a alma”, completa a jovem que, segundo ela, não é muito de sorrir, ou pelo menos não era.

Hoje, após ter feito cirurgia nas duas mãos, Gabriela só precisa de ajuda para se transferir de um lugar para outro. Como toda garota de sua idade se pinta, faz escova de cabelo, se depila e, o que era para ela um bicho de “sete cabeças”, a sonda, se tornou um “animal domesticado”. Renata Paulos, segundo suas palavras, a doutora mais humana que já conheceu, lhe devolveu sua liberdade, a sensação de não depender do outro para fazer as coisas por ela.“Tudo que eu puder fazer para melhorar eu farei. O amanhã tá nas mãos de Deus”, finaliza Gabi.

Médico faz da ortopedia sua segunda família






Foto e texto: by Stela Murgel



A engenharia era praticamente certa para Gabriel Errol Menaizagal Mendonza, o o Gabriel da recon, como é conhecido pelos amigos. Mas, quis o destino que ao invés de um “construtor” o mundo ganhasse um “reconstrutor”. Voluntário do grupo de reconstrução do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP, natural de Oruro, Bolívia, Gabriel sempre quis ser médico, “ se não conseguisse ingressar na medicina iria para o seminário”, conta.

Portador de uma síndrome que causa deformidade na face, esperou terminar a faculdade de medicina para retomar o tratamento que iniciou em Cuba aos 6 anos. Por indicação de uma colega de trabalho, veio ao Brasil, país que não estava em seus planos, procurar tratamento. E, como ele mesmo diz, “nada acontece por acaso”, mais uma vez o senhor destino deu uma mão e fez com que chegasse ao Brasil há tempo de prestar residência na ortopedia do Hospital das Clinicas como estrangeiro.

O ano de 2011, chegou cheio de desafios para o novo residente, um novo país, retomar um tratamento, e dar início a residência médica. É com carinho que lembra da primeira Reunião Clínica em que teve que se apresentar, “fiquei com vontade de fazer xixi de medo”, conta, “e nunca vou esquecer que o primeiro a falar comigo foi o dr Paulo Reis, que hoje tenho como um pai”, completa.

Foram anos difíceis. Pensou em desistir e voltar para Bolivia, mas depois, apesar das dificuldades, foi descobrindo na instituição sua segunda família com direito a um “pai”, dr Paulo Reis, e a um “irmão herói”, dr Luciano Torres, por quem tem profunda admiração, além de ter feito duas das 6 cirurgias pelas quais passou no Brasil. Mas, a família não para nos dois membros, a lista é grande e Gabriel teme esquecer alguém.


Hoje, o médico com nome de anjo, querido por colegas e pacientes, cheio de gratidão, descobriu que sua alma é brasileira e sua outra metade é o Instituto de Ortopedia. A conquista foi difícil, como toda a relação cheia de altos e baixos, com direito a uma mistura de sentimentos, mas ao longo dos anos construíram uma linda “história de amor”