quinta-feira, 11 de junho de 2020

A visita de Neide

Foto e texto: Stela Murgel

Leito 70, leito 71, leito 72... leito 73! Lá está ela, dona Aurea, 91 anos. Num abraço solitário, com dor no corpo pela falta de posição, afinal são cinco dias deitada no leito 73 da enfermaria do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo. Diagnóstico? Covid-19, como todos os outros que ali estão.

Sem poder receber visitas, acordou pensando na Neide, sua sobrinha , e com mais duas preocupações: não tinha roupa para ir para casa e nem chave para abrir a porta. Afinal, ela queria ir embora. Estava muito bem tratada e cheia de atenções, mas queria ir para casa.

Entretida com seus pensamentos dona Aura nem percebeu a aproximação da equipe da humanização que vinha para a hora da visita. Visita? Sim, uma televisita! Ela poderia falar com a Neide.

“Meu deus, não sabia que existia isso. Vou ver Neide? Onde está Neide?” questiona a paciente encantada com a novidade tecnológica e a possibilidade de ver e falar com Neide. São duas tentativas até se conectarem, e quando Neide finalmente aparece a euforia é tanta em dizer que estava sem roupa para ir embora e chave da casa que dona Aura nem notou que não conseguia ouvi-la. Mas, nada importava, ela estava vendo Neide, a Laudineide que cuidou quando criança, e agora, cuida dela.

Euforia, gestos, alegria fizeram parte da hora da visita do leito 73 na enfermaria do Pronto Socorro do Hospital das Clínicas de São Paulo. Não importa se dona Aurea não escutava, ela podia falar e ver o sorriso de quem tanto amava. E esta mistura de emoções marcou a tão esperada visita da Neide.