sexta-feira, 25 de outubro de 2019

"Maior sorriso da América Latina"


Texto e foto: Stela Murgel


Sorriso no rosto e a alegria do primeiro dia de trabalho. É assim que colegas do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUSP encontram Sandra Irineu Duarte, enfermeira do 2B. São 19 anos de Hospital das Clínicas, mas Sandra chega todos os dias com o ânimo e a disposição da primeira vez que chegou para trabalhar.
Natural de Fortaleza, a caçula de uma família de retirantes, veio para São Paulo ainda criança. Lembra da impressão traumática que teve da cidade por conta do frio. Acostumada com uma região quente, em que o inverno é sinônimo de chuva, teve alergia ao novo clima.
Começou cedo, o primeiro emprego foi como ajudante de cozinha em um hotel. ”Trabalhava durante o dia e a noite fazia curso de auxiliar de enfermagem”, relembra a enfermeira, que escolheu a profissão seguindo os conselhos de uma vizinha.
Reservada e apaixonada pelo que faz, Sandra, que nunca imaginou trabalhar num hospital, hoje exibe o crachá e diz com orgulho “Trabalho no maior hospital da América Latina”.
Emotiva, se considera uma pessoa privilegiada. Amada e contando com apoio de muitas pessoas, se define como uma heroína, pelas batalhas diárias. Problemas? Sim ela tem, mas ficam guardados quando sai de casa para mais uma jornada. “Deixo meus problemas lá fora”.
Profissional dedicada, é motivo de orgulho de toda a família. Foi a única do clã a fazer faculdade. Sagitariana, extremamente apegada aos familiares, a enfermeira otimista e de sorriso sempre presente no rosto, tem o sonho de voltar a terra natal. “Adoro o mar, os bichos, a natureza”, revela com brilho nos olhos.


Sandra se prepara para poder retornar para os braços de sua tão amada terra, mas enquanto isso não acontece, só nos resta dizer com muito orgulho “Temos no HC o maior sorriso da América Latina”.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Plantar para “valer a pena”


Texto e foto: Stela Murgel


Posto de enfermagem do 1ºB. Atrás do balcão, Dani, com a feição de quem aguarda na janela entre um afazer e outro.  A oficial administrativa, Danielle Carla da Silva, é a segunda de três irmãos. “A “dona encrenca”, a que questiona tudo”, diz.
Natural de São Paulo, é uma “hagaciana” de berço. Nasceu no Hospital das Clínicas, frequentou a creche, estudou nos arredores e, hoje, trabalha na ortopedia. “HC na veia”, fala dando risada, a descendente de uma funcionária aposentada da instituição.
Da criança que cresceu com o pai ausente, tem na memória a lembrança da batalha da mãe para a criação dos filhos, e a vitamina de abacate na mamadeira, momento que ficou na memória dela e dos irmãos. “Era a hora que tínhamos para ficarmos todos juntos”, conta.
Persistência é a palavra que define a moça de personalidade forte, que aprendeu a se defender do preconceito racial, e que procura ser uma inspiração para a filha de 14 anos, assim como a mãe é para ela. “Sou amiga de minha filha, mas quando é para ser mãe eu sou MÂE! E se tiver que defender minha cria, viro uma verdadeira leoa”.
Atualmente, além do trabalho no hospital, Danielle - que também é formada em recursos humanos e protética – se aperfeiçoa na área de estética. Ela que sempre foi muito vaidosa, e que criou coragem depois dos 30 anos de ousar no visual, gosta de cuidar da estética das pessoas.
Extremamente família, foi com a mãe que aprendeu que a união é o que realmente importa. Hoje, a menina tímida, deu espaço a mulher desinibida, durona, mas sensível, e com um sorriso que a acompanha em cada passo dado. Seletiva nas amizades e dona de uma alma colorida, tem certeza que cada semente plantada para o futuro “vai valer a pena”.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

É preciso brincar para poder...VIVER!



Texto: Stela Murgel
Foto: Arquivo pessoal

Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HCFMUPS, térreo, ambulatório, sala 8. É na sala atrás da porta amarela que se encontra a assistente social Giani Gouveia. Entre um atendimento e outro, muitos afazeres. O olhar maroto e o jeito brincalhão não escondem o passado de uma mulher que teve infância. “Minha lembrança mais forte de criança é o brincar, brinquei muito”, diz com um semblante de quem viaja no tempo.
Única mulher e caçula de uma prole de três, Giani nasceu em São Miguel Paulista, na maternidade de São Miguel Paulista, como gosta de frisar para que não haja nenhuma dúvida de sua naturalidade.
Descendente de migrantes nordestinos, que se conheceram em São Paulo, foi uma menina que brincou de casinha, corda, boneca e, principalmente, cheia de amigos. “Eu tive uma infância”, fala com orgulho de quem vive cada etapa da vida.
Filha de doméstica com um operário, conta que sempre teve dos pais, que não tiveram oportunidade, o incentivo para os estudos. Focada em romper e não em reproduzir a história dos progenitores, que sempre foram uma inspiração, Giani batalhou, e batalhou muito para ter uma formação.
A escolha da carreira foi para poder auxiliar o trabalho voluntário que fazia com população de rua. Psicologia? Serviço Social? Escolheu serviço social. Opção acertada. Durante o curso, descobriu que a profissão era a sua cara. “É dinâmico, prático, protagonismo, faz com que o indivíduo vá atrás dos seus direitos. Lute. Gosto disso, acho que tem tudo haver comigo esta briga”, constata.

Com nome em homenagem a uma cantora, o lema da Gi, Gigi, Canjica ou, apenas, Giani, é "seguir em frente", assim como a música de Almir Sater, e viver todas as fases da vida intensamente. Hoje, depois de brincar, descobrir e se firmar, está em uma de suas melhores fases: VIVER!

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Simplesmente...AMOR


Texto e foto: Stela Murgel

Sentada no leito tomando seu café e com olhar desconfiado, está Joelma Souza, 46 anos. No rosto, as marcas deixadas pela vida difícil de uma mulher que não teve infância. “Vivia pelo mundo”, diz com um fio de voz.
Mãe de 5 filhos, Jo foi obrigada a amadurecer cedo. Teve sua primeira filha aos 12 anos, fruto de um abuso sofrido por um conhecido, assim como milhares de Joelmas neste Brasil. É em um vai e vem que conta sua história, que tem uma ferida profunda aberta (e não cicatrizada) no dia que lhe arrancaram do braço sua primogênita, gerada através da violência, mas amada como uma menina ama sua primeira boneca
Ainda criança, teve que aprender a enfrentar o mundo e os obstáculos. Não foi alfabetizada, mas fez questão que suas maiores bênçãos, os filhos, estudassem. Natural de Iguape, entrava na adolescência quando se casou e foi morar no sítio.
Hoje, internada na enfermaria de cuidados paliativos do Hospital das Clínicas, não vê a hora de retornar para sua casa, suas crias e netos. Guerreira, a mulher que resume o ontem como "terrível", o hoje como "é legal", e o amanhã como "será legal", tem o sonho de se curar e voltar a sua rotina, de antes do AVC e do infarto.

O destino prega peças, e no caso de JoJo, que se define na palavra amor, já que não consegue trazer no coração sentimentos como raiva, ódio, mágoa, ele foi certeiro, tornou seu coração fraco. Mas, não tão debilitado que não consiga levar dentro dele o mais puro e grande dos sentimentos, o AMOR!

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

A gata que cuida




Texto e foto:  Stela Murgel

Horror. Vontade de voltar correndo para casa. Estas foram as primeiras sensações que a técnica de enfermagem Tanisa Helena, a Tan Tan, sentiu ao chegar em São Paulo. Ainda lembra do vai e vem da rodoviária do Jabaquara. "Me deu uma frustração estar longe de onde achava que ia ficar a vida toda”, conta Tanisa.
Natural de Itariri, no Vale do Ribeira, cidade com 15 mil habitantes, era de se esperar o choque ao se deparar com a cidade grande. Pegar metrô, ônibus, tudo muito novo para a moça de interior que, sozinha, veio parar na loucura paulistana por uma oportunidade de emprego."Chorei uma semana”, relembra com sorriso no rosto.
Com a infância marcada pela figura da avó materna, Tanisa escolheu a profissão por causa do pai, que faleceu ainda jovem. O sentimento de impotência por não saber o que fazer para ajuda-lo durante a enfermidade, fez com que a adolescente prometesse a si mesma que cuidaria de outras pessoas quando crescesse.
O cheiro das plantas que traz na memória, remete a sua infância, a  sua família. Gosta de estar no aconchego do lar junto ao marido e aos quatro gatos. Ler histórias de terror é um dos hobbys preferidos desta mulher de sorriso cativante que busca amizades verdadeiras.

O sorriso farto e o jeito desinibido, escondem uma personalidade felina. Tímida, ela sorri, mas assim como um gato, só irá se “aconchegar” aos novos amigos depois de conhecer. “É preciso me conquistar, para que eu mostre meu melhor lado”, diz . Mas, o que a gata que cuida esquece de salientar é que, como na história do pequeno príncipe, somos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos e, portanto, ela que tem como inspiração os colegas de trabalho, é responsável por cada um deles, mesmo antes de mostrar o seu melhor lado.